Aguardente

Hoje, desejar você dói tanto que decido apressar o final.

Sei que na hora em que disser “acabou”, o que sobrar não será mais eu. Dizem que há vida após a morte. Pois pago para ver.

Por isso, quando você me beija, deixo de lado a candura e devoro sua língua. E deslizo minha boca pelo seu peito, mordo seus pêlos e ouço seu suspiro.

Ao contrário de sempre, hoje não sorrio. Em vez de passar lábios delicados e provocantes pelo seu pau, afasto a cabeça e me limito a observar enquanto ele se ergue aflito. Vejo seu rosto relaxado, seus olhos cerrados, a boca semi-aberta num quase sorriso. Você ainda não sabe. Ainda espera minha carícia dócil. No entanto, com a mão direita espalmada, acomodo a parte de baixo do seu saco entre o indicador e o polegar da minha mão direita e junto as pontas dos dois dedos com firmeza.

O susto que atravessa seu rosto não desfaz a confiança com a qual você se entrega. Nem assim, tão preso e vulnerável, você se debate. O pau desenha uma esplêndida ereção, aproximo a glande da minha boca e a puxo para dentro com um movimento decidido.

Nessa hora, você é meu. Entregue, desprotegido, a alma em carne viva, você é só seu pau e seu pau é todo meu. Aperto os dedos no mesmo ritmo acelerado que imprimo à minha boca. Uso o polegar da outra mão para deslizar com segurança sobre o tendão que vai desde sua glande até seu cu. É o cordame que enfuna suas velas. É o nervo dos ventos e tempestades. É por ali que conduzo minha nau, que fabrico rotas invisíveis sobre o oceano.

Agora sim, sou senhora dos seus mares. Sou a corsária que rouba o mapa do seu tesouro. A pirata que vai fazer sua vida se esvair em água. Quando seu pau dá o primeiro soluço, aperto os dedos e conduzo a primeira onda até o o céu da minha boca. Assim, uma após outra, em vagas cada vez mais altas, em gritos cada vez mais fortes. Até que a eu beba sua vida transformada na espuma que sobrou da ressaca.

Agora, eu sorrio. Você ainda geme. Seus dedos de gaivota desarrumam meu cabelo.

Você começa a rir também. Sobrevivente da minha voracidade, novamente senhor dos seus caminhos, levanta em passos trôpegos, pega o telefone e pede à recepção do hotel duas caipirinhas de limão bem fortes.

Ainda há muito o que arder nesta noite.

5 Comentários

  1. Quanta poesia e tesão! Quanta sede, quanta vontade… E com vontade fico eu, lendo, só… Beijos! Amei!

  2. Li, reli… Aqui, tudo arde.

  3. [...] Aguardente [...]

  4. Boa tarde amore…Tudo bem ?

    Resolvi contar algo mais “interessante” sobre 2007 depois que você disse que eu estava sonegando aos leitores risos…
    Passa lá depois.

    Beijão.
    ;)

  5. ardente, pulsante, de enrigecer a espinha! adorável.


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